A neuroplasticidade é a capacidade do cérebro de se reorganizar: criar novas ligações, reforçar as que são úteis e deixar desaparecer outras. Nos últimos anos, tornou-se uma das áreas mais ativas da investigação sobre psicadélicos, porque vários estudos sugerem que a psilocibina, o composto presente no Psilocybe cubensis, pode influenciar precisamente estes processos.
Este artigo resume o que a investigação mostra realmente, distinguindo os resultados sólidos de laboratório dos dados preliminares em humanos e das afirmações que circulam frequentemente na internet. Trata-se de uma visão geral informativa da ciência publicada, e não de aconselhamento médico nem de um guia de utilização.

O que é a neuroplasticidade?
Os neurónios comunicam através de junções chamadas sinapses. Muitas delas situam-se em espinhas dendríticas, pequenas saliências nos ramos de um neurónio. Quando as espinhas se formam, crescem ou desaparecem, o cérebro está literalmente a reorganizar as suas ligações. Esta é a base física da aprendizagem, da memória e da adaptação.
Os investigadores interessam-se por este tema porque condições como o stress crónico e a depressão têm sido associadas à perda destas ligações em áreas como o córtex pré-frontal. Por isso, tudo o que possa promover uma plasticidade saudável tem grande interesse científico.
Como a psilocibina atua no cérebro
A psilocibina é, em si, um pró-fármaco: o organismo converte-a em psilocina, que atua principalmente nos recetores de serotonina 5-HT2A. Estes recetores estão muito presentes no córtex e são responsáveis pelos efeitos percetivos dos psicadélicos. Se quiser perceber a diferença entre as duas moléculas, leia o nosso artigo sobre psilocibina vs psilocina.
A questão que interessa aos investigadores da plasticidade é o que acontece para além desses efeitos imediatos, nos dias e semanas seguintes.
O que mostram os estudos de laboratório
Novas espinhas dendríticas em ratinhos
Em 2021, uma equipa da Universidade de Yale publicou na revista Neuron um estudo que mostrou que uma única dose de psilocibina em ratinhos aumentou em cerca de 10% o número e o tamanho das espinhas dendríticas no córtex frontal. Parte desse crescimento mantinha-se um mês depois. O estudo é resumido neste artigo da Yale News.
Uma ligação direta ao BDNF
Em 2023, investigadores liderados pela Universidade de Helsínquia descreveram na Nature Neuroscience que os psicadélicos, incluindo a psilocina, se ligam diretamente ao TrkB, o recetor do BDNF (fator neurotrófico derivado do cérebro), uma molécula-chave da plasticidade. Segundo os autores, esta ligação era muito mais forte do que a dos antidepressivos convencionais e parecia ser independente do efeito alucinogénio. O artigo completo está disponível na PubMed Central.

O que sabemos em humanos
Não é possível medir espinhas dendríticas em cérebros humanos vivos, por isso os estudos em humanos analisam antes as redes cerebrais. Em 2024, investigadores da Universidade de Washington publicaram na Nature um estudo de imagiologia cerebral de precisão em que a psilocibina “dessincronizou” fortemente as redes cerebrais, sobretudo a rede de modo padrão, envolvida no pensamento autorreferencial. A maioria das alterações normalizou em poucos dias, mas uma redução da ligação entre o hipocampo e a rede de modo padrão manteve-se durante semanas. Pode ler o resumo da universidade aqui.
Os investigadores interpretam este “afrouxamento” temporário das redes como uma janela em que o cérebro poderá estar mais flexível, o que pode ajudar a explicar por que razão a psilocibina está a ser estudada em contexto clínico em conjunto com a psicoterapia.
A psilocibina na investigação clínica na Europa
A terapia assistida por psilocibina está a ser investigada em ensaios clínicos para condições como a depressão resistente ao tratamento. Na Europa, a República Checa tornou-se o primeiro país da UE a permitir o seu uso terapêutico: desde 1 de janeiro de 2026, a psilocibina pode ser utilizada em tratamento sob condições médicas rigorosas. O Instituto Nacional de Saúde Mental checo explica este enquadramento nesta declaração oficial.
Fora destes contextos regulamentados, a psilocibina continua a ser uma substância controlada na maioria dos países europeus, por isso é importante verificar a legislação do local onde vive.
O que a investigação sobre neuroplasticidade (ainda) não mostra
- Os resultados em ratinhos não são resultados em humanos. O crescimento de espinhas dendríticas foi demonstrado em animais; em humanos, observamos apenas sinais indiretos nas redes cerebrais.
- Mais plasticidade não é automaticamente melhor. A plasticidade pode reforçar padrões úteis ou prejudiciais, consoante o contexto, e é por isso que os estudos clínicos combinam a psilocibina com terapia e supervisão.
- Não foi demonstrado que doses pequenas produzam os mesmos efeitos. Os estudos controlados sobre microdosagem encontraram efeitos semelhantes aos do placebo, como explicamos no nosso artigo sobre microdosagem de psilocibina e o que diz a ciência.
Porque é que isto é importante para a micologia
Toda esta investigação depende de material bem caracterizado: espécies conhecidas, genética documentada e análise laboratorial. É a mesma abordagem que seguimos na MycoBag, com cultivares documentadas da Full Canopy Genetics, que pode explorar no nosso guia de genéticas de cogumelos de elite, e com o MycoTest, o nosso serviço de análise laboratorial de amostras de cogumelos.

Perguntas frequentes
A psilocibina cria novos neurónios?
Os estudos referidos mostram novas ligações (espinhas dendríticas) entre neurónios já existentes em ratinhos, e não a criação de novos neurónios.
Quanto tempo duram as alterações?
Em ratinhos, parte do crescimento das espinhas durou pelo menos um mês. Em humanos, a maioria das alterações nas redes normalizou em poucos dias, mas algumas mantiveram-se durante semanas.
A psilocibina é legal para fins terapêuticos na Europa?
Apenas em enquadramentos regulamentados específicos, como na República Checa desde 2026. Na maioria dos países europeus continua a ser uma substância controlada.
Este artigo tem fins exclusivamente informativos e científicos e não constitui aconselhamento médico.
